quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

"Por muito tempo achei que a ausência é falta e lastimava, ignorante , a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta sem ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a branca, tão pegada, aconchegada em meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim".
Carlos Drummond de Andrade
(in memorian da minha amiga Érika Santana)


Luto p
elas "pequenas mortes" - Maria Júlia Kovács


" As perdas e a sua elaboração fazem parte do cotidiano, já que são vividas em todos os momentos do desenolvimento humano. São as perdas por morte, as separações amorosas, bem como, as perdas consideradas como "pequenas mortes", como, por exemplo, as fases do desenvolvimento, da infância para a adolescência, vida adulta e velhice. São também vividas como "pequenas mortes" mudanças de casa, de emprego. O matrimônio e o nascimento do filho também são "mortes simbólicas", onde uma pessoa perde algo "conhecido", como o papel de solteiro e o de filho, e vive o "desconhecido" de ser cônjuge ou pai. Estas situações podem despertar angústia, medo, solidão e, neste ponto, trazem alguma analogia com a morte. Carregam em si elementos de sofrimento, dor, tristeza e uma certa desestruturação egóica. Um tempo de elaboração se faz necessário".

(Maria Júlia Kovács. Capítulo 9: "Morte, Separação, Perdas e o Processo de Luto". In: Morte e Desenvolvimento Humano. 2 ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992, pp. 163-164).


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

Morrer é preciso: Fernando Pessoa

Num artigo muito interessante, Paulo Angelim, que é arquiteto, pós-graduado em marketing, dizia mais ou menos o seguinte: Nós estamos acostumados a ligar a palavra morte apenas a ausência de vida e isso é um erro. Existem outros tipos de morte e precisamos morrer todo dia. A morte nada mais é do que uma passagem, uma transformação. Não existe planta sem a morte da semente, não existe embrião sem a morte do óvulo e do esperma, não existe borboleta sem a morte da lagarta, isso é óbvio. A morte nada mais é que o ponto de partida para o início de algo novo, a fronteira entre o passado e o futuro. Se você quer ser um bom universitário, mate dentro de você o secundarista aéreo que acha que ainda tem muito tempo pela frente. Quer ser um bom profissional? Então mate dentro de você o universitário descomprometido que acha que a vida se resume a estudar só o suficiente para fazer as provas. Quer ter um bom relacionamento? Então mate dentro de você o jovem inseguro, ciumento, crítico, exigente, imaturo, egoísta ou o solteiro solto que pensa que pode fazer planos sozinho, sem ter que dividir espaços, projeto e tempo com mais ninguém. Quer ter boas amizades? Então mate dentro de si a pessoa insatisfeita e descompromissada, que só pensa em si mesmo. Mate a vontade de tentar manipular as pessoas de acordo com a sua conveniência. Respeite seus amigos, colegas de trabalho e vizinhos. Enfim, todo processo de evolução exige que matemos o nosso "eu" passado, inferior. E qual o risco de não agirmos assim? O risco está em tentarmos ser duas pessoas ao mesmo tempo, perdendo o nosso foco, comprometendo essa produtividade, e, por fim prejudicando nosso sucesso. Muitas pessoas não evoluem porque ficam se agarrando ao que eram, não se projetam para o que serão ou desejam ser. Elas querem a nova etapa, sem abrir mão da forma como pensavam ou como agiam e acabam se transformando em projetos acabados, híbridos. Adultos infantilizados. Podemos até agir, às vezes, como meninos, de tal forma que mantemos as virtudes de criança, que também são necessários: brincadeira, sorriso fácil, vitalidade, criatividade, tolerância, etc. Mas, se quisermos ser adultos, devemos necessariamente matar atitudes infantis, para passarmos a agir como adultos. Quer ser alguém (líder, profissional, pai ou mãe, cidadão ou cidadã, amigo ou amiga) melhor e evoluído? Então, o que você precisa matar em si, ainda hoje, é o "egoísmo" é o "egocentrismo", para que nasça o ser que você tanto deseja ser. Pense nisso e morra! Mas, não esqueça de nascer melhor ainda!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pedro Bial - Morte

Cissa Guimarães desabafa sobre a morte do filho Rafael Mascarenhas


Cissa Guimarães desabafa sobre a morte do filho Rafael Mascarenhas
Centenas de parentes, amigos e curiosos lotaram a Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, durante a missa de sétimo dia do filho da atriz, Rafael Mascarenhas
28/07/2010 - 10:32 - Extra

“A sensação que tenho é de que meu filho está mais vivo do que nunca. Quem morreu fui eu. Estamos falando da minha morte”, disse a atriz Cissa Guimarães, num desabafo emocionado à revista “Quem Acontece” sobre a perda do filho Rafael. Sobre os responsáveis pelo atropelamento e morte do jovem, ela disse que a vida deles está destruída:
- Eles estão nas trevas, na escuridão total – disse a atriz à revista “Quem”.

Poema sobre a morte


A velhice e a morte

Postado por Paulo Coelho em 31 de julho às 00:11 no site: www.g1.com.br/paulocoelho/

Quando ficamos velho, e estamos perto da morte, passamos a acreditar em qualquer coisa. Podemos durar mais cinco, dez, vinte anos - entretanto, com esta idade a gente termina entendendo que vai morrer.
Para os mais jovens, a morte é uma ideia remota, que pode acontecer um dia. Para os velhos, é algo que pode vir amanhã. Por isso, muitos velhos passam o tempo que lhes sobra olhando apenas numa direção: o passado.
Não é que gostem muito das lembranças; mas sabem que ali não vão encontrar o que temem.
Poucos velhos olham para o futuro, e quando fazem isso, descobrem o que o futuro realmente lhes reserva: a morte.

sábado, 26 de junho de 2010

Espanha promove a eutanásia em dois municípios madrilenhos


MADRI, quinta-feira, 17 de junho de 2010 (ZENIT.org) –

A Associação Direito de Morrer Dignamente gerencia dois serviços municipais de “assessoria cidadã por uma morte digna”, nos municípios de Rivas-Vaciamadrid e Getafe, ambos na Comunidade de Madri, Espanha, com uma posição ideológica a favor da eutanásia.

A Associação Direito de Morrer Dignamente (DMD), presidida pelo doutor Luis Montes (ex-chefe do Serviço de Urgências do Hospital Severo Ochoa) está encarregada, nas duas localidades madrilenas, das chamadas “assessorias cidadãs por uma morte digna”, aparentemente assessorias informativas nas quais se orienta sobre os direitos dos enfermos, familiares, pessoas idosas, etc, na etapa final ou ao término de sua vida, informou a ZENIT Ignacio Pascual, da organização Profissionais pela Ética.

Nessas oficinas se oferece aos cidadãos um documento conhecido como “testamento vital” ou “instruções prévias”, um modelo que parece seguir o espírito da lei que regula estes documentos: ajudar as pessoas a expressarem sua vontade diante das graves circunstâncias de saúde, quando não podem fazê-lo por si só.

Contudo, os Profissionais pela Ética garantem que este texto (que o cidadão firma voluntariamente) está ideologicamente posicionado a favor da eutanásia e, portanto, é tendencioso, já que expressamente afirma: “se para a então legislação é vigente o direito de morrer com dignidade mediante a eutanásia ativa, é minha vontade evitar todo tipo de sofrimento e morrer de forma rápida e sem dor de acordo com a lex artis ad hoc”.

Segundo a doutora Maria Alonso, médica da Família da Comunidade de Madri, a atitude diante do sofrimento nos estados terminais, segundo a lex artis, não consiste em acabar com a pessoa que sofre (eutanásia), mas com o sofrimento da pessoa, humanizando de forma especial a atenção desses momentos. “Por isso – afirma –, é contraditório utilizar a expressão lex artis quando se fala de um fim pela eutanásia”.

Portanto, a organização Profissionais pela Ética adverte que o documento que está sendo distribuído nas assessorias cidadãs está completamente preparado para influenciar no “consentimento” a favor da eutanásia. Neste sentido, limita o livre exercício da autonomia da vontade do paciente, um dos valores mais defendidos por todo nosso ordenamento jurídico.

Além disso, o documento da DMD estabelece que o signatário não desejará viver nas seguintes circunstâncias ... danos celebrais, demências, tumores, enfermidades crônicas ou degenerativas, estados vegetativos, acidentes cérebro-vasculares ou qualquer outro padecimento grave e irreversível.

O escrito também leva o cidadão a afirmar o seguinte: “... não desejo para mim uma vida dependente na qual necessito da ajuda de outras pessoas para realizar as ‘atividades básicas da vida diária’, tais como se banhar, se vestir, se alimentar e caminhar”.

“Diante destes tipos de expressões das pessoas que solicitam não querer mais viver”, garante a doutora Alonso, “a psiquiatria propõe uma abordagem mediante tratamento individualizado, com muito boa resposta habitualmente. Em quase todas as ocasiões se consegue que estas pessoas se sintam muito agradecidas pelo tratamento médico recebido e esqueçam seus desejos de morrer. Os sentimentos de desejar morrer diante da incapacidade de fazer atividades básicas normalmente cedem quando o enfermo deposita sua confiança nos profissionais da saúde e recebe ajuda e apoio de seus familiares e da sociedade”.

Por último, as pessoas que firmaram o documento solicitam expressamente que sejam administrados “os remédios para reduzir o sofrimento, mesmo que possam encurtar a vida, a sedação terminal, e seja permitido morrer em paz”.

Segundo a doutora Alonso, esta expressão introduz confusão entre sedação paliativa e sedação terminal. Na paliativa são usados remédios para aliviar o sofrimento de um paciente não necessariamente terminal; na sedação terminal ou na agonia, trata-se de um paciente que vai morrer em questão de horas ou dias. Se só falam da terminal significa que provavelmente o objetivo é terminar com a vida do paciente em horas.

Em todo caso, a organização Profissionais pela Ética recorda que, ainda que uma pessoa tenha firmado este modelo que opta pela morte em quase todas as circunstâncias, o médico, a equipe de saúde e quantas pessoas atenderem o paciente deverão respeitar as instruções prévias nos limites estabelecidos na lei e poderão exercer a objeção de consciência.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Como lidar com a morte do seu animal de estimação

Edlberto Rodrigues, Denise Fantoni, Teresinha Martins e Daniella Godoi são veterinários do primeiro ambulatório de cuidados paliativos para animais domésticos do Brasil. Eles amenizam o sofrimento de cães e gatos com doenças sem chance de cura. Mais do que isso: ajudam os donos a oferecer qualidade de vida e conforto para seus bichos de estimação quando mais precisam. Em um dos consultórios do Hospital Veterinário da Universidade de São Paulo (USP), a palavra sacrifício é a última a ser ouvida. Lá, a perspectiva da morte é trabalhada, mas deixada em segundo plano. O importante é oferecer um final de vida com menos sofrimento possível para animais portadores de doenças crônico-degenerativas, como o câncer, e dor extrema. Raríssima em animais, a prática dos cuidados paliativos representa uma mudança na visão da medicina veterinária que costumava determinar a eutanásia como o destino natural de um bicho velho ou doente.

Estima-se que existam 33 milhões de cães e 17 milhões de gatos no Brasil. Em grande parte dos lares do país, o animal é visto como alguém da família. O problema é que a expectativa de vida dos bichos, mesmo sendo maior hoje em dia, é curta em relação ao tempo que o dono viverá. Mais cedo ou mais tarde, ele terá que lidar com a perda do animal querido. Pensando como os médicos veterinários poderiam ajudar nesse momento, a professora Denise Fantoni decidiu acompanhar em 2005 a rotina de pacientes terminais do Hospital das Clínicas de São Paulo. A experiência possibilitou ao grupo de estudos chefiado por ela na USP conhecer os caminhos para a melhoria da qualidade de vida de pacientes com esse perfil. Denise percebeu ali que poderia aplicar o conceito de cuidados paliativos no mundo animal.
No ambulatório do Hospital Veterinário da USP, todos os animais têm algum tipo de doença que os levará à morte. O tratamento realizado no local consiste, basicamente, em um trabalho de medicação e orientação. Os veterinários receitam remédios para que o bicho não sofra com as dores da doença, acompanham a evolução do quadro clínico e ensinam aos proprietários medidas simples para melhorar a rotina dos animais, como fazer a vontade deles sempre que possível. “Em geral, um cachorro deve ser alimentado com ração. Mas nesse momento da vida isso deixa de fazer sentido”, diz Denise Fantoni. “Se ele gosta mais de comer carne ou macarrão, orientamos o dono a dar ao bicho o que ele quer.” Outro tipo de medida ensinada no ambulatório refere-se ao lugar em que o animal passará a maior parte do tempo. “É importante nessa escolha levar em conta o aumento da proximidade do cão com as pessoas da casa”, afirma Teresinha Martins, colaboradora do programa e veterinária. “Não é porque ele está com uma doença que deve ficar no quintal sozinho. Trazê-lo para dentro e dar muito carinho são essenciais.”

A equipe ainda recomenda aos proprietários rigor com o horário das medicações. Caso contrário, as dores – e o sofrimento do bicho – podem piorar. Os pacientes são acompanhados de perto pelos veterinários do ambulatório por meio de consultas semanais, quinzenais ou mensais. Dependendo do caso, eles fornecem seus telefones para que possam ser informados pelos donos sobre a evolução da doença.

A base dos cuidados paliativos no Hospital Veterinário da USP está em um questionário elaborado pela professora Denise e por sua ex-doutoranda, a veterinária Karina Yazbek. Ele é composto por doze perguntas feitas ao proprietário do animal a cada consulta (ver quadro abaixo). As questões avaliam a disposição do bicho para comer, brincar, andar e dormir, entre outros aspectos. O seu resultado pode determinar a alteração ou não do tratamento. “É através das respostas que a equipe avalia se as medicações estão surtindo efeito para conter a dor”, diz Daniella Godoi, veterinária e outra colaboradora da equipe. “Se notarmos que não existe mais qualidade de vida para o bicho, a eutanásia se torna a única alternativa para acabar com o seu sofrimento.”

É quando a morte, até então em segundo plano no ambulatório, adquire forma. Vista por alguns como um fracasso, ela é enxergada pelos veterinários como a chave dos cuidados paliativos: “A morte não é um fracasso para o médico. Fracasso é não tratar o bicho com dignidade e respeito quando ele está à beira da morte. Nosso trabalho não é acrescentar dias de vida ao bicho, mas dar qualidade de vida aos poucos dias que ele tem”, afirma Teresinha.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Doente partilhou a morte na internet

Vencedora de um concurso de misses, Eva Markvoort sonhava ser atriz. Morreu de fibrose cística em Março e partilhou num blogue os últimos momentos de vida e dois anos de sofrimento no hospital. Veja o vídeo de despedida.
"Olá, mundo", disse Eva para a câmara, numa cama de hospital e rodeada pela família. "Blog, amigos, todos vocês: tenho notícias para vos dar. É difícil de ouvir, mas consigo dizê-lo com um sorriso. A minha vida está a chegar ao fim".

Eva Markvoort sofria de fibrose cística, uma doença hereditária incurável cujos principais sintomas são a formação de cistos no pâncreas e a acumulação de muco nos pulmões. Sempre com esperança de receber um segundo transplante duplo de pulmões, ainda que essa fosse uma hipótese improvável, a jovem documentou a evolução da doença num blog.
O "65_RedRoses" ("65 Rosas Vermelhas"), o diário digital de Eva, foi iniciado em 2006, para combater o isolamento a que os hospitais obrigam os doentes com fibrose cística devido ao risco de infecção. Eva, que ficava sozinha depois da hora de visita, começou a procurar outros pacientes através da Internet.
O nome do blog teve origem na dificuldade que Eva tinha, quando era pequena, de pronunciar o nome da doença ("cystic fibrosis", em inglês), dizendo, como é comum nas crianças com a doença, "sixty-five roses". Markvoort adicionou, posteriormente, a sua cor favorita, o vermelho, ao nome do blog.
Eva Markvoort foi, ainda, tema de um documentário canadiano com o mesmo nome do blog, que mostrava a luta diária com a fibrose cística: as tosses violentas, os vômitos, os tratamentos difíceis, a espera pelo transplante duplo de pulmões. O documentário acabou com a confirmação do transplante, um sinal de que a jovem estaria prestes a começar a sua recuperação.
No entanto, pouco menos de dois anos após a operação, o corpo começou a rejeitar os pulmões e Eva voltou a ressentir-se. Muitos dos seus posts e vídeos no blog estavam intercalados com manifestações súbitas da doença.
Apesar da condição física ter piorado, Eva nunca desistia da vida ou se isolava. Numa das entradas de vídeo do "65_RedRoses", diz: "Sinto-me uma felizarda, porque amei mais do que possam pensar ou imaginar. Por isso festejo isso: festejo a minha vida".

O testemunho de Eva Markvoort gerou uma onda de solidariedade um pouco por todo o mundo, desde os EUA à Polônia. Através do blog, a jovem lutou para que a população em geral se conscientizasse para a doença de que padecia e da necessidade da doação de órgãos.
"Senti-me muito egoísta quando li o teu blog, porque fumei durante anos, tomando os meus pulmões como garantidos. Ajudaste-me a deixar o pior hábito que alguma vez time", escreveu, uma vez, um visitante do "65_RedRoses", citado pela CNN.
Partilhar a doença
De acordo com a CNN, a partilha pública dos últimos dias de vida é uma forma de quebrar o estigma da morte para o resto das pessoas, dizem os médicos que tratam de pacientes terminais.
"Na última década assistimos a mudança de uma cultura bastante fechada à ideia da morte para uma que partilha as últimas experiências", explicou Chris Feudtner, diretor de pesquisa dos Serviços de Cuidados Paliativos do Hospital Pediátrico de Filadélfia, nos EUA. "As pessoas pensam: "Ainda estou viva. Não quero estar fechada, quero uma ligação. Quero partilhar a minha aprendizagem ao longo desta viagem".
O blog de Eva Markvoort não foi o primeiro a divulgar publicamente o sofrimento de pacientes de doenças graves. Miles Levin, um jovem de 18 anos falecido em 2007 com um tipo de cancro raro, e Michelle Lyn Mayer, de 39 anos, que morreu em 2008 com escleroderma, também partilharam os seus pensamentos sobre vida e morte em diários digitais.
Num caso um pouco mais divulgado mediaticamente, também Jade Goody, uma concorrente do Big Brother inglês, decidiu divulgar publicamente o cancro do útero de que sofria e a progressão da doença, ainda que com objetivo de angariar dinheiro que garantisse o futuro dos dois filhos depois de morrer.

JORNAL DE NOTÍCIAS
11/05/2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Mãe antecipa parto para atender desejo de filho com doença grave

Bebê britânico deverá nascer três semanas antes do previsto para que irmão com câncer possa segurá-lo.

BBC

O menino Pierce White-Carter.O menino Pierce White-Carter. (Foto: BBC)

Uma mulher na Grã-Bretanha deverá se submeter a um parto induzido três semanas antes do previsto para atender a um pedido do filho de oito anos que tem câncer.

Pierce White-Carter tem um neuroblastoma, um tipo agressivo de câncer que afeta, principalmente, as células do sistema nervoso periférico. Um tratamento de quimioterapia fracassou e os médicos acreditam que ele tenha poucas semanas de vida.

No topo da lista de coisas que o menino quer fazer antes de morrer está segurar o novo irmão ou irmã nos braços.

O parto induzido da mãe de Pierce, Rebecca White, de 27 anos, está programado para ocorrer dentro de duas semanas.

'Dignidade'

Os pais de Pierce decidiram suspender a quimioterapia depois de informados de que o tratamento não estava surtindo efeito.

Rebecca White, mãe do garoto.Rebecca White, mãe do garoto. (Foto: BBC)

"Nós decidimos que é melhor que ele morra com um pouco de dignidade", disse White à BBC.

"Nós conversamos com ele sobre isso e ele disse que aguentou o suficiente, que não quer mais. Está cansado."

Para a mãe, Pierce não é apenas um filho, mas seu "melhor amigo".

"Eu e ele fazíamos tudo juntos. É duro saber que não vamos poder fazer isso por muito tempo."

White disse que os médicos concordaram com o parto prematuro e receitaram esteroides para garantir que os pulmões do bebê - o quinto filho do casal - estejam formados.

Pierce, recentemente, riscou um dos itens de sua lista do que fazer antes de morrer ao atuar como mascote de seu time favorito de rugby, Huddersfield Giants.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Apresentador é preso após revelar na TV ter matado parceiro com Aids

Um apresentador da BBC que revelou ter sufocado seu ex-parceiro que sofria de Aids para poupá-lo de uma "dor terrível" foi preso nesta quarta-feira.
Ray Gosling, de 70 anos, contou aos telespectadores do programa Inside Out que tinha um pacto com seu antigo parceiro - cujo nome não revelou - de pôr fim à vida dele caso a dor da doença se tornasse insuportável e não houvesse mais esperança de tratamento. O programa foi ao ar na segunda-feira.
Em seu programa, que abordou o tema da morte, o apresentador de Nottingham disse que o momento chegou quando médicos comunicaram que não havia mais opções para reverter a doença.
"Eu disse ao médico: 'Deixe-nos a sós apenas um momento', e ele nos deixou. Eu peguei o travesseiro e o sufoquei até a morte. Não tenho remorso. Fiz o certo", revelou Gosling.
Na manhã de terça-feira, após a exibição do programa, a polícia de Nottinghamshire tinha anunciado a instauração de um inquérito sobre o caso. Um porta-voz da BBC disse que a empresa não sabia da confissão até o momento de o programa ter ido ao ar.
Horas antes, em um programa matinal da BBC, o apresentador havia afirmado que estava consciente das implicações - inclusive criminais - da revelação.
"Quando você ama alguém, é difícil vê-lo sofrer. Minha impressão sobre a eutanásia é como gelatina - balança de um lado para o outro. Agora é o momento de compartilhar um segredo mantido sob sigilo por muito tempo", declarou Gosling.
O apresentador afirmou que alguns membros da família de seu ex-parceiro sabiam do episódio, mas não imaginou que sua confissão fosse ser transmitida em rede nacional e ganhar o mundo.
Gosling disse que decidiu contar seu segredo para o seu público da região de East Midlands porque tem uma "relação íntima" com os telespectadores.
Experiência
O editor do programa Inside Out em East Midlands, Tony Rowe, disse que a decisão de Gosling de revelar seu segredo veio a partir da experiência de fazer um programa sobre a morte, em que ele entrevistou, entre outras pessoas, uma mulher responsável pelo marido que sofre do mal de Alzheimer.
"Ele conversou com tanta gente sobre suas experiências ao longo da produção do programa que achou que seria desonesto não falar da sua própria", disse Rowe. "Fomos muito cuidadosos para garantir que ele estava ciente de quanto ele estava se expondo."
"Em 20 anos de documentário, foi provavelmente o filme mais forte em que já estive envolvido."
O suicídio assistido é crime na Grã-Bretanha, mas novas diretrizes publicadas em setembro pelas autoridades judiciais estabelecem fatores que influenciam a decisão de abrir ou não um processo em diferentes casos na Inglaterra e no País de Gales.
No mês passado, Kay Gilderdale, 55, de Stonegate, em East Sussex, foi absolvida da acusação de tentar matar sua filha de 31 anos, que estava seriamente doente e já havia tentado pôr fim à sua vida antes.
Dias antes, outra mãe, Francês Inglis, 57, de Londres, foi condenada a nove anos de prisão por assassinato por ter injetado uma dose letal de heroína em seu filho Thomas, que sofria de danos cerebrais.
BBC Brasil

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Americana ganha diploma de professora aos 100 anos e morre no dia seguinte


Harriet Richardson Ames disse estar feliz por realizar um velho sonho.
Ela sempre ensinou, mas só conseguiu se formar oficialmente agora.


A norte-americana Harriet Richardson Ames formou-se bacharel em educação aos 100 anos, na última sexta-feira (22) no estado americano de New Hampshire, mas não "aproveitou" o diploma: ela morreu no dia seguinte.

Harriet morreu três semanas depois de completar seu centésimo aniversário, em 2 de janeiro. Ela recebeu o diploma de professora, um velho sono, em sua cama, pouco antes de morrer.

A professora aposentada se disse feliz por ter conseguido seu objetivo, segundo sua filha.

"Ela disse que tinha uma lista de objetivos na vida, e que este era o último", afirmou a filha, Marjorie Carpenter.

Harriet Richardson Ames em foto sem data determinada. (Foto: AP)

Harriet tinha um certificado de professora que ganhou em 1931, após ter estudado dois anos na Keene Normal School, hoje Keene State College.

Com ele, deu aulas em uma pequena escola em South Newbury, e depois passou 20 anos como diretora de ensino na Memorial School, em Pittsfield.

Ao longo dos anos, ela foi tendo aulas na Universidade de New Hampshire, na Plymouth Teachers College e na Keene State para angariar créditos para conseguir o diploma de curso superior.

Mas, com problemas de vista, ela teve de parar com as aulas depois da aposentadoria, em 1971. Ela nunca teve certeza se tinha obtido os créditos necessários para garantir o diploma.

Seu antigo desejo por se formar oficialmente veio à tona quando um professor de cinema entrevistou-a, em 2008, para um documentário sobre o centenário do colégio, celebrado no ano seguinte.

A escola então resolveu revirar seus registros e descobrir se Harriet tinha direito ao tão desejado diploma. Durante um mês, os responsáveis trabalharam rápido e chegaram à conclusão que sim.

"Ela queria ser o melhor que ela podia ser", disse Norma Walker, coordenadora de um grupo que reune ex-alunos.

Segundo Norma, Harriet disse, durante uma visita recente que, se morresse no dia seguinte ao dia em que se formasse oficialmente, morreria feliz, porque seu diploma "estava a caminho".

Os responsáveis da escola entregaram o diploma a Harriet em sua cama, na última sexta.

Norma, que conheceu Harriet em 1997 em um encontro de ex-alunos, disse que gostava de ouvir a idosa falar sobre seus alunos e sobre como ela os encorajava a ler.

"Ela é o tipo de pessoa que todo pais gostaria de ter como professora de seus filhos", disse Norma.

Norma afirmou que vai ler o conteúdo do diploma de Harriet durante suas cerimônias fúnebres, no próximo sábado. "Isso se eu não chorar", disse.

Paula Finnegan Dickinson, ex-aluna de Harriet em 1956 e hoje também professora, lembra da idosa como uma mentora e uma amiga querida.

"Com seu entusiasmo, os personagens dos livros viviam", disse. "Ela nos mostrou como a leitura abria as portas para outras experiências que nós jamais teríamos conhecido."

Da AP

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Enfermaria em São Paulo atende pacientes em cuidados paliativos

Pela primeira vez, uma equipe de TV entra na Enfermaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Estadual, em São Paulo. Médicos e enfermeiros ajudam pacientes a ter bons dias antes da morte.

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1176736-7823-ENFERMARIA+EM+SAO+PAULO+CUIDA+DE+PACIENTES+TERMINAIS,00.html

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Divulgação de carta alarma especialistas

Psicanalistas e psicólogos criticam gesto da família de liberar documento

O gesto da família da atriz Leila Lopes de divulgar trechos da carta que ela deixou ao se suicidar alarmou especialistas. Eles entendem que a leitura do documento pode estimular pessoas em sofrimento psíquico a repetir o ato.

Os trechos da carta foram liberados pela família de Leila, encontrada morta na quinta-feira passada, e tiveram divulgação ontem em alguns sites e agências de notícias. Tradicionalmente, a imprensa brasileira não publica informação sobre suicídios. O pacto não escrito assenta-se na percepção de que a divulgação dos atos incentiva novas mortes.

O psicanalista Mário Corso considerou grave o precedente.

– Não tem de publicar isso. Não é esclarecedor e não traz vantagem para ninguém. A pessoa deprimida que lê a carta pode se sentir traduzida e motivada por ela. Quem está namorando a ideia da morte e vê esse exemplo, pode reunir coragem – alerta.

O fato de se tratar de uma pessoa famosa, diz Corso, amplifica o risco da divulgação da carta. O psicanalista observa que, no imaginário popular, virar artista da Globo e ser reconhecido na rua, como Leila, representa o ápice do sucesso.

– A pessoa pensa: se ela que é famosa e linda se mata, por que eu que não sou nada disso não vou me matar? – diz o especialista.

Famosos podem influenciar as pessoas, diz especialista

O chefe de saúde mental do Hospital de Pronto Socorro, Jair Segal, também ressalta que a divulgação da carta de Leila Lopes, por ser uma pessoa nacionalmente conhecida, pode influenciar milhares de pessoas por todo o país:

– Pode ser uma escolha, uma definição de problemas para muita gente.

Para Segal, a escolha da família em mostrar detalhes das últimas palavras escritas pela atriz é uma forma de alívio.

– Eles podem estar se sentindo culpados por não ter conseguido impedir. É claro que não têm culpa, mas serve de purgatório – analisa.

A doutora em psicologia Blanca Susana Guevara Werlang, coordenadora do Grupo de Prevenção e Intervenção em Comportamento Violento da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), defende que os meios de comunicação devem falar em suicídio, mas sempre no viés recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS): de orientação, educação e prevenção. A especialista concorda que a divulgação de informações como a carta de Leila Lopes é de risco.

– Pode ser um disparador para quem está em situação de vulnerabildiade. Até se pode publicar que a pessoa deixou uma carta, mas não o teor dela. É preciso ter muito cuidado com isso – avalia.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Tanatologia e Ernest Becker

A morte paira sobre todos nós, mas na maior parte do tempo as pessoas tentam evitar pensamentos sobre ela. O sucesso de produtos antiidade e o aumento da função do hospital, como o defensor da vida além do tempo depois que a qualidade de vida diminui são duas coisas que comprovam isso. Na maioria das culturas, as pessoas evitam pensar sobre a morte, ao passo que em outras, porém, o assunto é considerado fascinante. Uma escola de pensamento inteira é dedicada ao estudo da morte e do ato de morrer - junto com seus processos, como a tristeza. Essa área se chama tanatologia.
Os tanatologistas acreditam que os humanos dividiram a morte numa tentativa de nos fazer acreditar que não vamos morrer. Infelizmente, se não encararmos nossa própria mortalidade - ou até mesmo a mortalidade das pessoas em nosso redor - seremos pegos de surpresa quando a morte inevitavelmente bater a nossa porta. E, pior ainda, deixaremos de viver nossas vidas da melhor forma possível. Os tanatologistas dizem que a pessoa que aceitou sua própria mortalidade irá aproveitar a vida completamente.
As pessoas que estudam a morte - como médicos, donos de funerárias e psicólogos - dizem que, antes do início do século passado, a morte era uma parte bem visível da vida na cultura ocidental. Quando uma pessoa morria, era mais provável que fosse em casa. O corpo dela muitas vezes era colocado em um sofá ou em uma cama na sala de estar, por incrível que pareça, e as pessoas comiam ao redor dela. Os membros da família dormiam perto do corpo da pessoa querida. Elas pediam que fotógrafos profissionais tirassem fotos da família reunida ao redor do corpo, que algumas vezes era apoiado com os olhos abertos para parecer que ainda estava vivo.
Esse processo costumava acontecer por alguns dias, antes que a pessoa fosse enterrada. Adultos e crianças tinham contato com o corpo. Dessa maneira, uma criança se tornava familiarizada com a morte, e estava comprovadamente mais pronta para encarar sua própria mortalidade do que as crianças de hoje.
Então, por que é tão difícil para algumas pessoas encararem a morte? O medo do desconhecido com certeza é uma razão, mas existe um outro aspecto, que é mais sublime e está baseado na medicina moderna.
Há um século, uma pessoa com câncer morreria. Uma pessoa com acesso à tecnologia médica de hoje tem uma chance muito maior de viver. Dessa maneira, algumas pessoas começaram a ver a medicina como um jeito de enganar a morte, e em vez de encarar o fato de que irão morrer algum dia elas esperam que a medicina as salve de seus destinos inevitáveis.
Isso é o que o psicólogo Ernest Becker considerava uma distração. Becker ganhou o Prêmio Pulitzer em 1974 por seu livro "A negação da morte". Becker acreditava que a cultura como um todo servia para nos distrair de nossas mortes iminentes. É como se estivéssemos na mesma montanha-russa, que está se movendo lentamente em direção ao topo. Esse topo é a morte, e cada um de nós acabará chegando a ele. Nessa metáfora, a cultura seria um conjunto de televisões gigantes em cada um dos lados do percurso da montanha-russa, que algumas pessoas escolhem assistir em vez de olhar em direção ao topo e imaginar o que está além dele.
Embora algumas pessoas se deixem distrair, todos nós estamos, contudo, inconscientemente cientes de que nosso tempo na Terra é limitado. Na opinião de Becker, isso causa sentimentos de ansiedade e angústia que são expressados por meio de atos agressivos, como invasões e guerras.
A área de estudo de Becker - conhecida como psicologia da morte - sugere a pior maneira de morrer. Como a cultura tem o potencial de nos distrair para não encararmos a morte, isso pode fazer que desperdicemos nossas vidas. O pior tipo de morte, de acordo com a teoria Becker, seria aquele que sucede uma vida insignificante.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

No banheiro da escola, um tiro

O caso da estudante de 15 anos que se matou com o revólver do pai levanta o problema da falta de controle do acesso de jovens às armas
Elida Oliveira, de Curitiba. Com Andres Vera

O CENÁRIO A fachada do colégio, no centro de Curitiba. Depois do suicídio de uma aluna, a direção optou pelo silêncio
Um tiro de revólver Taurus, calibre 38, calou para sempre a voz de Ana (nome fictício para preservar sua identidade). Em uma fração de segundo, sonhos, planos e projetos da garota de 15 anos ficaram para trás. A bala não a acertou por acidente nem foi disparada por um criminoso. Foi Ana quem puxou o gatilho.
Sua morte permaneceu à margem do noticiário. Nenhum retrato dela foi estampado nos jornais. Era uma adolescente bonita, cujos cabelos escuros contrastavam com a pele clara. Ana estudava no Colégio Bom Jesus, um dos melhores de Curitiba, no centro da cidade. Vivia com os pais – um delegado aposentado e uma enfermeira que prestava serviços comunitários – e com um irmão, de 21 anos, acadêmico de Direito da Universidade Federal do Paraná. Tinha tantos planos que ninguém percebeu o que estava tramando para aquela manhã da segunda-feira 23 de março.
Depois de tomar o café com os pais, Ana vestiu o uniforme – calça preta com listras verdes nas laterais –, calçou o tênis All Star vermelho, pegou a mochila e foi para a escola de carona com o pai. Ao se despedir, combinou com o pai que ele iria buscá-la na saída, às 18 horas. Poucos minutos depois, um estampido mudaria a rotina do Bom Jesus.
Ao entrar na escola, Ana não foi para a sala de aula de uma das 11 turmas do 2º ano do ensino médio, que ocupam o 2º e o 3º andares do prédio. Subiu mais alguns pavimentos em direção à FAE, a faculdade pertencente à mesma instituição. As aulas dos universitários começariam dali a 45 minutos. Às 7 horas da manhã, aqueles corredores estavam praticamente vazios. Não haveria ninguém que a impedisse de fazer o que planejava. Na mochila, carregada de livros e cadernos, Ana trazia um revólver de fácil manuseio, sem travas, registrado em nome do pai. Ninguém notou se o comportamento de Ana estava diferente, tampouco o objeto estranho entrando na escola. Se alguém sabia dos motivos que a levaram ao suicídio, manteve segredo.
Na mochila, ela trazia um revólver de fácil manuseio, que o pai guardava em lugar em princípio seguro. A morte da garota nas circunstâncias em que ocorreu é um caso raro no Brasil. Cinco anos atrás, um em cada oito estudantes de ensino médio no país afirmava já ter visto um revólver na escola. Acredita-se que hoje esse índice seja ainda maior. Suicídios desse gênero, em escolas, são ocorrências raras em termos estatísticos. Mas um dos detalhes alarmantes nesse caso é a facilidade com que se entra em uma escola com uma arma carregada. Em outros países, massacres cometidos em escolas se tornaram um pesadelo para pais, alunos e professores. No Brasil, por ora, o caso mais conhecido ocorreu não numa escola, mas no cinema de um shopping de São Paulo, em 1999: um estudante descarregou uma submetralhadora contra a plateia, matando três pessoas e ferindo quatro.
O que teria motivado Ana a se matar na escola? Quem a conhecia diz que sua personalidade era forte. Ela aparentava uma segurança atípica para a idade. Argumentava bem, defendendo suas ideias em conversas com amigos. Gostava de ouvir música clássica, mas também adorava o rock do Radiohead e do U2. Era prática e decidida. Quando queria um livro ou uma roupa, pesquisava as opções na internet até encontrar o melhor preço. Os pais não lhe negavam nada. Ana gostava de pintura, que praticava desde os 8 anos. Poderia ser uma grande artista plástica, mas pensava em cursar história (outra paixão) e, depois, fazer pós-graduação em história da arte. Já havia tentado alguns esportes, como o judô, mas achava o confronto desnecessário e logo perdeu o interesse. Em algum momento, não se sabe por quê, o desinteresse teria avançado para outros aspectos de sua vida.
Não houve grito nem pedido de socorro. Em silêncio, ela entrou no banheiro e se trancou num dos cinco espaços reservados. Sentada sobre a latrina, disparou contra a boca. Ninguém sabe ao certo como ela chegou a esse ponto. Ana não deixou bilhete algum.
Em todo o mundo, a mesma sensação de vácuo é sentida por amigos e familiares de pelo menos 3 mil pessoas que se matam todos os dias, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) – outras 60 mil tentam e não conseguem. O suicídio continua sendo um tabu na sociedade, embora seja uma questão de saúde pública. Medidas de prevenção podem fazer com que potenciais suicidas mudem de ideia antes de consumar o ato. Locais altos, por exemplo, podem ser isolados por grades que evitem quedas voluntárias. Remédios e produtos químicos que possam causar intoxicação devem ser mantidos fora do alcance de pessoas diagnosticadas com propensão ao suicídio.
Nos minutos após o disparo de Ana, os ânimos ficaram pesados dentro da escola. Ao mesmo tempo que as equipes médicas constatavam a morte da adolescente, os alunos eram informados de que deveriam entrar em contato com suas famílias para voltar para casa. “Eles disseram que uma aluna havia morrido, mas não disseram onde nem quem era. Fomos descobrindo enquanto descíamos as escadas”, diz um aluno do 2º ano. Boatos logo se espalharam: que haveria um tiroteio na escola, que alguém teria se enforcado no banheiro, que a adolescente teria se matado após uma briga com o namorado, que ela poderia estar grávida. Nada disso era verdade. Ana, ao que se saiba, nem mesmo tinha namorado.
Para a família, a dúvida sobre o que levou Ana a cometer o suicídio permanece no ar. “Se for para falar do que aconteceu, deveríamos tratar de bullying, porque armas em escola existe uma em 1 milhão; já bullying acontece em todas as escolas”, disse o pai, referindo-se à violência física ou psicológica repetitiva no ambiente escolar. Uma professora comentou que, se o problema fosse assédio moral, Ana tiraria o caso de letra: “Ela seria a primeira a reverter a situação”, afirma.
Três meses antes da tragédia, porém, Ana procurou os pais e pediu para que eles a levassem a um psicólogo. Dizia sentir-se triste e desmotivada. O pai passou a pegá-la na aula de pintura e levá-la semanalmente a um psiquiatra. No inquérito policial sobre o suicídio apurou-se que ela tomava calmantes para dormir, artifício para controlar a ansiedade que sentia. O único sinal percebido por uma das amigas teria sido uma frase escrita no serviço de recados instantâneos Messenger, o MSN, uma semana antes da tragédia. Ana se intitulou “A menina feita de leite e sangue”. A imagem tanto pode se referir à formação de uma identidade que queria se desvincular da infância quanto ao sangue que ela estava prestes a derramar.
Embora próxima à mãe, Ana, como muitas adolescentes, se desentendia com o pai. As brigas eram constantes. Visto como protetor pelos conhecidos, ele pouco a deixava sair sozinha e fazia questão de levá-la ao shopping, à casa das amigas e à escola, e ir buscá-la. A atitude incomodava Ana e era motivo de constante reclamação.
O ambiente escolar precisa ser um espaço de debate, para o jovem compartilhar seus medos e angústias. É o local ideal para o debate de temas sobre a adolescência e a prevenção da violência, já que muitos estudantes passam mais tempo na escola que em casa. Mas o Colégio Bom Jesus optou pelo silêncio. Funcionários disseram que estão proibidos de comentar o assunto. A direção do colégio não quis se pronunciar, alegando (compreensivelmente) que a morte da adolescente trouxe um grande desgaste para professores, alunos e equipe pedagógica. A direção teria apenas conversado com os estudantes da turma à qual Ana pertencia. Nas demais salas, os professores deveriam decidir, sozinhos, se comentavam ou não o caso.
De acordo com o estudante do 2º ano Filipe Narcolini Kroetz, de 16 anos, alguns professores abordaram os temas vida e moral ao tratar do assunto, relacionando-os às aulas de literatura e filosofia. Para a mãe de uma aluna do 1º ano do ensino médio, que preferiu não se identificar, a escola poderia ter se aproximado mais dos pais e alunos neste momento para discutir os temas pertinentes ao caso. “Não fui instruída pela escola sobre como debater esse assunto em casa”, afirma. “Eles também não convocaram uma reunião de pais para explicar quais sintomas poderiam ter sido percebidos e como fazer para ajudar nossos filhos na transição da adolescência.”
O silêncio prejudica a compreensão e a prevenção de outros casos semelhantes. O Brasil pode ainda estar distante da realidade dos colégios e faculdades dos Estados Unidos, onde alunos armados já provocaram centenas de mortes. As tragédias na Columbine High School, em Littleton, no Colorado, há dez anos, que deixou 15 mortos, e em VirginiaTech, na cidade de Blacksburg, em abril de 2007, com 33 mortes, despertaram em pais, alunos, professores e até na polícia a urgência de adotar medidas preventivas para evitar futuros massacres. “A tragédia de Columbine nos ensinou que o atirador nunca tem um perfil específico, mas que mesmo assim fornece pistas que podem ajudar a polícia ou a escola a prevenir esse tipo de acidente”, diz o jornalista americano Dave Cullen, autor do livro Columbine, ainda sem tradução para o português. É um primeiro passo para lidar com uma situação que pode produzir catástrofes.

Comentário

Ao ler o artigo “No banheiro da escola, um tiro” (Revista Época, p.164-166, mai/2009), uma preocupação me rodeou, dentre tantas outras.
Como educadora, fiquei pensando na Escola Bom Jesus – Curitiba, onde aconteceu o suicídio da jovem Ana (nome fictício) de 15 anos. As escolas, geralmente, não sabem como lidar com esse tipo de situação, afinal escolas preparam para a vida. No entanto a morte faz parte da vida.
Educadores tem que estar preparados para cuidar de situações como essas, pois como ficam os alunos?Os amigos? Os não tão amigos? Os pais? Os funcionários e também os professores? Todos precisarão de apoio para enfrentarem a situação.
É importante falar, discutir o assunto, ouvir, homenagear e principalmente não calar. As escolas, muitas vezes, acham que não falar sobre o assunto é a melhor maneira de “esquecer” e enfrentar a situação.
Puro engano! Numa situação como é a morte, as pessoas sentem necessidade de expor o que estão sentindo – a saudade, o medo, a falta, a raiva, a tristeza e muitos outros sentimentos são despertados numa situação como essa.
Uma escuta sensível por parte dos educadores num momento tão difícil como esse pode fazer uma grande diferença. “Ao escutar o aluno, com seus medos, indagações sobre o morrer e a morte, o professor vai além da disciplinaridade, liberando o aluno a romper com a dicotomia entre o cognitivo e o afetivo. Refletir sobre a realidade vivida dos alunos, valoriza-se cada um em particular, e possibilita um diálogo aberto e plural das necessidades que esses alunos apresentam” (Ariana, 2008, p.24).
O luto não deve ser calado. Silenciar a morte é assumir uma atitude de indiferença perante a situação. É responsabilidade dos profissionais da educação criarem uma postura diferente para lidar com o assunto. Kovács (2003) expressa muito bem esse desejo: “Cabe aos profissionais engajados no processo de rehumanização da morte abrir espaço para a expressão da dor, do sofrimento, numa atmosfera acolhedora, não compactuando com o silenciamento e abafamento trazidos por uma sociedade que fala sobre o ser forte , ou pelo menos discreto e, quando se trata de morte, não incomodar. Um ouvido disponível tem melhor efeito do que calmantes”.
Desejo que a Escola Bom Jesus, junto com seus educadores, consigam fazer o seu papel, enquanto instituição de educação, dando todo o apoio aos familiares, alunos e funcionários, os quais estão passando por uma “dor” tão difícil de suportar.

REFERÊNCIAS:

KOVÁCS, Maria Jùlia. Educação para a Morte: temas e reflexões. São Paulo. Casa do Psicólogo: Fapesp, 2003.

MAGALHÃES, Ariana T. de O. As Representações Sociais da Morte para Professoras e Pais em Instituições de Educação Infantil. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação, UnB: Brasília/DF, 2008.
Ariana Trindade de O. Magalhães
Pedagoga, Psicopedagoga, Especialização em Sexologia, Mestre em Educação pela UNB.